Atualizado em setembro de 2026 · 13 min de leitura

Espanha: Mais de 900 Mil Imigrantes Pediram Regularização em 2026. O Que Aconteceu — e o Que Vem Depois.

Em 16 de abril de 2026, a Espanha abriu o processo extraordinário de regularização migratória previsto no Real Decreto 316/2026, que modificou o Regulamento de Extranjería (Real Decreto 1155/2024). A expectativa do governo Sánchez era atender meio milhão de pessoas. Quando a janela fechou, em 30 de junho de 2026, o país contava mais de 900 mil pedidos — quase o dobro —, a larga maioria de imigrantes da América Latina, incluindo brasileiros.

O contraste com Portugal é direto e foi até tema de discussão na Europa: enquanto o governo de Luís Montenegro fechava as últimas portas da imigração sem visto (com a chamada “Lei do Retorno” indo ao Tribunal Constitucional), a Espanha transformou uma realidade informal de 840 mil pessoas em situação irregular em política migratória organizada. Neste artigo: requisitos, números, quem se beneficiou e o que acontece agora com quem entrou na fila.

Resumo do processo (2026):

  • Base legal: Real Decreto 316/2026 (14/04/2026), que modifica o RD 1155/2024
  • Janela de pedidos: 16 de abril a 30 de junho de 2026
  • Resultado: mais de 900 mil pedidos (esperados: 500 mil)
  • Requisito-chave: estar na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026 + permanência ininterrupta de 5 meses
  • Sem antecedentes penais na Espanha, no país de origem e nos países de residência dos últimos 5 anos
  • Autorização de 1 ano, com direito a trabalhar em qualquer setor e região
  • Comunicação de início da tramitação já habilita a trabalhar imediatamente

O que é o arraigo extraordinário

O Real Decreto 316/2026 criou duas novas figuras de autorização de residência por circunstâncias excecionais (arraigo), nas disposições adicionais 20.ª e 21.ª do Regulamento:

Disp. adicional 20.ª — para solicitantes de proteção internacional

Quem pediu asilo na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026 e ainda não teve a solicitação ou o recurso resolvido pode acessar a autorização de residência por arraigo. Não é preciso renunciar ao asilo antes de pedir — a renúncia só é exigida se a regularização for aprovada.

Disp. adicional 21.ª — arraigo extraordinário geral

Para quem estava na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026 em situação irregular. Requisitos acumulativos: permanência ininterrupta de ao menos 5 meses antes da solicitação; sem antecedentes penais; e pelo menos uma de três condições: vínculo laboral ou intenção de trabalhar (contrato de pelo menos 90 dias em um ano), unidade familiar com filhos menores, filhos maiores com deficiência ou ascendentes de 1.º grau, ou situação de vulnerabilidade comprovada por serviços sociais ou entidades inscritas no registro de colaboradores (RECEX).

Como se comprova a permanência?

Além do empadronamiento, valem qualquer prova admitida em direito que inclua dados pessoais do solicitante: faturas de luz, informes médicos, resguardos de serviços municipais, contratos. Para o requisito de estar na Espanha antes de 31/12/2025, vale documento de identidade, vigente ou caducado, e a documentação que acredite a permanência. O certificado de antecedentes penais do país de origem pode ser substituído: o governo dá 1 mês para apresentar o documento, pede pela via diplomática por 3 meses e ainda concede 15 dias adicionais — mas, sem o certificado, não há regularização.

Os números: quase o dobro do esperado

IndicadorDado
Pedidos apresentadosMais de 900 mil (dados oficiais ainda antes de 30/06)
Estimativa inicial do governo500 mil
Perfil majoritárioAmérica Latina — 80% ou mais dos irregulares
Brasileiros em situação irregular~25 mil poderiam ser beneficiados
Comunidade brasileira na Espanha~180 mil pessoas
Imigrantes irregulares na Espanha~840 mil (estimativa Funcas)
População total da Espanha49,57 milhões — recorde, com 10+ milhões nascidos no exterior
Crescimento de brasileiros (1º sem/2026)+14,3%

A advogada Thais Camargo, de Madrid, confirmou o perfil: 100% dos processos que geriu durante a janela eram da América Latina, 90% deles de brasileiras e brasileiros. Muitos, diz ela, vinham de Portugal — alguns em situação irregular no país vizinho, outros regularizados que trocaram de país (o que não é possível com a autorização portuguesa, que não permite trabalhar noutro Estado-membro).

Por que tantos brasileiros? O efeito Portugal

O processo coincidiu com a pior fase da insegurança jurídica em Portugal: 374 mil imigrantes com documentos vencidos, renovações paradas na AIMA, reformas legislativas em série (Lei 61/2025, Lei da Nacionalidade, “Lei do Retorno”) e um debate público crescentemente hostil. O Google Trends mostra um dado contundente: buscas por “como morar na Espanha” feitas a partir de Portugal cresceram 5.000%, com picos coincidindo com as discussões no Parlamento português sobre reagrupamento familiar e nacionalidade.

Na Espanha, o mesmo brasileiro encontra: autorização de residência em 3 meses (contra até 3 anos em Portugal), renovação que funciona, e a nacionalidade em 2 anos para ibero-americanos — contra 7 anos em Portugal. A estabilidade legislativa pesa: a Lei de Estrangeiros espanhola (LO 4/2000) mudou poucas vezes em 25 anos, enquanto a portuguesa já está na vigésima versão.

E depois da regularização? O passo a passo

1. Comunicação de início da tramitação

Documento oficial emitido pela Unidade de Tramitação de Expedientes (UTEX) que já habilita a residir e trabalhar em todo o território nacional, por conta própria ou alheia, em qualquer setor, até a resolução final. Não é o comprovante de solicitação — é a comunicação formal do início do procedimento.

2. Resolução

A administração tem máximo 3 meses para resolver e notificar. Passado o prazo sem resposta, o pedido é considerado desestimado por silêncio administrativo.

3. TIE

Com a resolução favorável, é preciso tirar a Tarjeta de Identidad de Extranjero (TIE) em até 1 mês na Unidade de Documentação da Polícia Nacional.

4. Depois do 1º ano

A autorização vale 1 ano e não permite viver ou trabalhar no resto da UE. Depois, é preciso migrar para as figuras ordinárias do Regulamento de Extranjería (arraigo sociolaboral, contrato de trabalho, etc.). Filhos menores incluídos no processo recebem autorização de 5 anos.

Casos especiais têm prorrogações de até 4 anos para doença grave, deficiência ou quem já alcançou a idade de jubilação, com requisitos de busca ativa de emprego flexibilizados.

A operação logística: 450 oficinas e reforço de 600 pessoas

Para absorver o volume, o governo espanhol montou um plano operativo com 450 oficinas de atendimento presencial, reforço de mais de 600 funcionários e apoio logístico de TRAGSA/TRAGSATEC (gestão material e documental, sem poder de decisão) e da Sociedade Estatal Correos, que recebeu solicitações em zonas rurais. A via telemática ficou aberta 24 horas por dia, 7 dias por semana, durante todo o prazo.

As críticas: Bruxelas, a oposição e o Papa

A medida dividiu a Europa. O comissário europeu para Administração Interna e Migração, Magnus Brunner, disse que a Espanha enviou um “mau sinal” ao regularizar centenas de milhares de imigrantes; Bruxelas avisou que a medida não deve ter “consequências negativas” no resto da UE. Na Espanha, PP e Vox criticaram; ONG, Igreja Católica, sindicatos e associações empresariais apoiaram. Em junho, durante visita ao país, o Papa Leão XIV pediu à Europa um “exame de consciência” sobre imigração, colocando a dignidade humana no centro.

O governo também foi acusado de usar o Real Decreto para “esquivar obstáculos parlamentares”, já que havia uma Iniciativa Legislativa Popular (ILP) em tramitação desde 2024 com 600 mil assinaturas pedindo exatamente a regularização. Independentemente do debate político, os números do Banco de Espanha e do BCE sustentam o argumento econômico: os fluxos migratórios impulsionaram decisivamente o PIB e o consumo espanhol nos últimos anos.

O que isso significa para quem quer migrar agora

A janela extraordinária fechou em 30 de junho de 2026 — e foi desenhada para não criar “efeito chamada”: quem chegou depois de 1º de janeiro de 2026 não tem acesso. Para quem planeja ir à Espanha a partir de agora, os caminhos são os ordinários:

Vistos consulares

No Lucrativa (renda passiva), Nômade Digital (Ley 14/2013, arts. 74 bis–74 quinquies, incluídos pela Lei de Startups — trabalho remoto), estudante ou trabalho com contrato, pedidos antes do voo, no consulado espanhol no Brasil. O Nômade Digital também pode ser pedido na própria Espanha, à UGE-CE, por quem está regular no país (turista incluído). O visto de Búsqueda de Empleo (12 meses) é restrito a filhos e netos de espanhóis de origem e a vagas da ordem GECCO — que não prevê nenhuma em 2026.

Quem já está irregular na Espanha

Restam as figuras ordinárias de arraigo do Regulamento de Extranjería (2 anos de permanência para arraigo social, entre outras), sem a janela excecional de 2026.

Nacionalidade em 2 anos

O maior atrativo segue de pé: brasileiros podem pedir a cidadania espanhola após 2 anos de residência legal, com as provas DELE A2 e CCSE (o Brasil não está isento da prova de idioma). Veja o guia completo da nacionalidade espanhola em 2 anos.

Perguntas frequentes

A regularização extraordinária ainda aceita pedidos?

Não. O prazo encerrou em 30 de junho de 2026. Quem perdeu a janela terá de usar as figuras ordinárias de arraigo do Regulamento de Extranjería.

Quem chegou à Espanha depois de 1º de janeiro de 2026 pode se beneficiar?

Não. A permanência antes de 1º de janeiro de 2026 era requisito absoluto do arraigo extraordinário — a regra existe justamente para não incentivar novas entradas irregulares.

A autorização de 1 ano vale para trabalhar em qualquer lugar da UE?

Não. É um permiso para residir e trabalhar exclusivamente na Espanha. Circular e trabalhar em outros países da UE exige as regras próprias de cada Estado.

O que acontece se o pedido não for respondido em 3 meses?

Pelo Regulamento, a falta de resposta no prazo de 3 meses equivale a desestimação por silêncio administrativo. Por isso, acompanhar o expediente com um profissional é essencial.

Brasileiros que estavam irregulares em Portugal podiam usar essa janela?

Sim — desde que estivessem fisicamente na Espanha antes de 1º de janeiro de 2026 e cumprissem os 5 meses de permanência ininterrupta. Muitos o fizeram; escritórios de advocacia em Madrid relataram alta procura de brasileiros vindos de Portugal. Quem estava em Portugal em 30/06/2026 já não pode mais entrar nessa via.

Fontes e referências

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